quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Comer, Rezar, Amar



Essa semana comecei a ler o livro de Elizabeth Gilbert, em francês, exatamente como queria quando estava na minha jornada burocrática rumo a Europa. Não encontrei nas livrarias brasileiras na época e desencanei.
               
É engraçado como o livro-filme estão vinculados a minha viagem em tantos aspectos... Coincidências? Acaso? Destino? Intervenção divina? Escolhas? Eu realmente não sei. Mas, pra quê saber anyway?




1)      Começando pelo começo:


Após uma aula de yoga, estava vendo O filme com o Filipe, que na época era apenas meu amigo-colorido (como Raquel diz). Recebo uma ligação de M., minha orientadora, falando que no dia seguinte o Prof W., que hoje é meu co-diretor de tese aqui em Lyon, estaria na universidade para uma reunião com a reitoria e que essa seria uma oportunidade de me encontrar com ele, apresentar o meu projeto e perguntar se ele aceitaria me orientar num período de pesquisas na universidade dele.

Ao encerrar a ligação, começou o nervosismo, pois teria que falar com o prof W. em francês, que na época estava mais do que enferrujado, sobre minha humilde pesquisa.

E assim foi: no dia seguinte dei o ponta-pé inicial e conversamos, nós três. Usei meu parco francês e M. traduzia W., apesar de eu compreender bastante do ele falava. Lembro-me de ele ter ressaltado que era possível perceber que eu tinha bom conhecimento e compreensão da língua e que a prática oral se ganha no país...

Acertamos questões de datas, expliquei minha situação no emprego e ele disse que estava de acordo e que me receberia.

Saindo de lá, matriculei-me num curso de francês e comecei a pesquisar editais e procedimentos que se tornaram minha vida desde março de 2011 (data do encontro com prof W.) até setembro de 2012 (mês que finalmente viajei). 

Foi um processo tão exaustivo, as vezes até doloroso, que se fosse descrever sairia um mix de suspense de Hitchcock com novela mexicana. Mas o que importa é que venci Murphy, meu arquirrival, e estou aqui (sendo feliz para sempre!)



2)      Cores


Os meses foram passando, as cores foram ficando mais intensas, e a amizade transformou-se em amor. Eu e Filipe começamos a namorar, um ‘relacionamento sério, porém divertido e engraçado’(piada interna).

Ainda hoje me surpreendo como nós transformamos nossa relação... Amo. Muito. Não imaginei que pudesse amá-lo tanto. Duvidei disso antes de começar o namoro, como bem sabem Kátia e Débora; duvidei disso no início. Resolvi pagar pra ver e como resultado, saí ganhando.

Tá, e daí? E daí que na terceira parte do filme, Julia Roberts encontra Javier Bardem.

Não sei se vcs já leram o livro ou se viram o filme, mas um resumão cabe aqui. Liz resolve tirar férias de sua vida pois não se sente feliz e realizada com como as coisas vão, mesmo tendo sucesso profissional e um namorado bonitão (pausa pra questionar o que é felicidade). Os ecos de seu divórcio ainda a atormentam e ela resolve realizar um sonho/plano antigo: passar um ano de sua vida viajando e escolhe 3 destinos: Itália, onde ela vai comer; Índia, onde ela vai rezar; e Indonésia, onde ela (acidentalmente, ou não) vai amar.  Enfim, após relutar um pouco ela se rende aos encantos de Felipe, o brasileiro que vive em Bali, e eles foram felizes para sempre.

A mocinha caiu in love pelo Felipe/Filipe e estão juntos vivendo esse amor. Obviamente não posso dizer pela Liz, somente por mim, mas me sinto muito feliz com meu Filipe, sinto que é pra sempre.

Phill me acompanhou na luta burocrática que enfrentei, me deu apoio e incentivo, me emprestou os ombros nas horas de choro, e foram tantas. Ele não saiu do meu lado e desejou a conquista de minha meta mesmo que isso significasse um período afastados.



3)      Estudar, viajar, surtar?


O tempo foi passando, as coisas foram acontecendo (ou não) e a vida foi seguindo. Revi o filme e tive a ideia muito original de escrever sobre a viagem em um blog. Inspirado pelo título do filme, pensei em fazer algo parecido, 3 verbos. Mas não necessariamente os mesmos. Então quais? Porquê não ‘Estudar, viajar, surtar’ já que a viagem era a estudos e a cada dia eu surtaria (positivamente) com algo. Blé!

Cheguei e fui escrevendo no blog que já tinha, mas pouco usava.

Fui vivendo, aprendendo, estudando, realizando sonhos... Viajei, ri, chorei, conheci pessoas e lugares. Conjuguei verbos que jamais pensara em conjugar (correr, lutar boxe, esquiar, por exemplo). E me dei conta como os 3 verbos escolhidos pela autora do livro podem se encaixar perfeitamente em minha jornada europeia.



Comer:

Quem me conhece sabe que sou chata pra comer, que prefiro lanchar a comer ‘comida de verdade’ (tipo arroz, feijão, salada). Fico feliz em almoçar joelho e jantar pizza. Mas um pouco antes de vir, descobri que estava quase diabética e que precisava perder peso. Então, além de monitorar a alimentação, estava correndo.

Cheguei e, apesar de estar sem mãe e sem namorado pra me vigiar, ‘comia direito’. Fazia feira aos domingos, compras de adulto no mercado, cozinha carne. Evitei lanches e macdonalds, saía da aula e vinha pra casa cozinhar, mesmo estando num país reconhecido por seus queijos e pães.

É complicado se adaptar a comida num país diferente, apesar de o Carrefour daqui ter bastante variedade e dispor de um estoque multicultural. Não sou uma boa cozinheira e não tenho a mínima noção de como se prepara determinadas comidas.

 Então, por que das aspas no ‘comia direito’? Porque a única coisa que sei preparar decentemente é macarrão (=carboidrato). Ou seja, na tentativa de comer direito (evitar sanduíches) eu me enchia de carboidrato, quase sem proteínas. Resultado: engordei.

Parece que é um efeito colateral com moças brasileiras aqui na Europa. Então, estou revendo toda minha alimentação, repensando meu verbo comer. Cortei carboidratos no almoço, tomo chá verde ao menos 2 
vezes ao dia, inseri mais frutas ao longo do dia. Vamos ver no que dá.

Pra ajudar no verbo emagrecer, eu corria no quai. Mas o frio agora me impede então me matriculei em uma academia e agora pratico o verbo boxear.



Rezar:


Como disse, o processo foi doloroso e penoso. Para ajudar na parte burocrática, pedia intervenção divina. Recuperei minha prática católica e encontrei uma fé que não sabia que tinha. Mesmo assim, muitas vezes as reviravoltas da novela me faziam ter dúvidas de concretização de meu objetivo. Até promessa minha mãe fez.

Ao chegar aqui, minha fé se avivou ainda mais. As igrejas aqui são um espetáculo arquitetônico e é impossível ficar indiferente quando se entra em uma catedral grandiosa, com tantos séculos de história. Para além do arrebatamento estético, senti um vibração existencial muito grande ao entrar na Catedral de Saint Jean. Sim, senti Deus. O mesmo aconteceu quando visitei a Notre Dame de Paris.

Coincidência ou intenção de mãe, fui pagar a promessa da dona Ruth: assistir 3 missas em 3 igrejas diferentes. Mas além do compromisso, da promessa, eu sinto que estou mais próxima das Forças Divinas. Rezo sempre, agradeço a cada realização, cada aprendizado, cada presente que ganho aqui (as vistas, as viagens, a neve, as experiências únicas). Sinto-me protegida pelo manto de minha mãezinha divina, que me impede até de sentir frio.


Amar:


A distância e a saudade intensificam sentimentos. Aprendemos novas formas de amar, de manifestar sentimentos.

Cada coisa que vemos e vivenciamos e vc só pensa em dividir isso com quem ficou em casa, fotografa tudo, corre pra postar e dividir a experiência.

Cada pequena saudade de pequenas coisas, pequenos gestos e hábitos. Sentir falta de sua mãe reclamando com vc de sua bagunça; chorar ao encontrar um cabelo seu na geladeira e entender as reclamações dela.
Valorizar cada encontro no MSN com seu pai, cada conselho que ele te dá. Poder falar coisas que vc jamais falaria pro seu irmão.

Enviar uma parte de seu coração junto com cada presente, com cada postal...

Aprender a ver seu namorado por outro ângulo, de frente, pois quando estamos junto, geralmente ficamos um ao lado do outro, no sofá, no carro, em restaurantes, no cinema. Aprender a admirar sua beleza mesmo quando ele fica quadriculado no skype.

Sentir falta do cachorro que vc nem gosta tanto assim...

Adorar cada ligação de sua sogra e vó-sogra.

Adorar cada curtida dos amigos nas suas postagens no Face, sabendo que eles não esqueceram de vc... 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A faculdade


Finalmente, depois de 2 meses de burocracia, dúvidas e espera, minha matrícula na Université de Lyon 3 foi efetivada. Estava esperando a confirmação para escrever o texto a respeito da faculdade.
Tenho muito a escrever e vou dividir os temas.


AS AULAS

Meu diretor de tese aqui (no Brasil, ele seria chamado de co-orientador) sugeriu que eu assistisse 3 cursos: dois ministrados por ele, e outro com outro prof. Mas, estou seguindo 4 aulas.

- A primeira é de Filosofia Geral, que serve para 3 graduações diferentes. Ele está falando sobre a Pensée Poétique, uma espécie de pensamento não-lógico, não-analítico, não-sistemático, cuja fundamentação reside nos escritos de Bachelard, Heidegger e Merleau-Ponty. Já vimos Heidegger e essa semana começamos o Merleau-Ponty.

- Na outra, que é do curso de Master em Cultura Visual, ele dá o curso Esthétique et Ethique des images. No começo, ele falou do surgimento do termo estética, e fez um rápido passeio histórico, desde Platão a Kant; passou também pela questão da aceitação das imagens para o Pensamento Cristão, desde seu início até o Renascimento; Falamos da atualidade, da quantidade de imagens que são produzidas graças ao aparato tecnológico, e também, a própria questão da tecnologia das imagens; Depois falamos sobre as imagens científicas (como a ciência se faz hoje atrelada as imagens) e dos usos das imagens pela medicina. As últimas aulas tem sido sobre formação de imagens pela mente humana (imaginação, fantasias, utopias...) e aí começamos a falar sobre o Bachelard. Apesar de o Bachelard só estar aparecendo agora, essa é minha aula favorita.

- O outro curso que o Prof me recomendou é exclusivamente sobre Bachelard e serviu pra mim como uma espécie de resumão: vimos a estrutura dos livros sobre a imaginação dos elementos, e das duas poéticas. Esse curso já acabou.

- Uma colega brasileira me convidou pra assistir outra aula: Esthétique Contemporaine, ministrado por um professor italiano, também no mestrado de Cultura Visual. No começo, ele estava falando de W.Benajmim, G. Deleuze e Zizek (e foi esse o motivo com o qual a Célia me convenceu a assistir), mas na verdade a aula é temática, e não sobre um livro ou autor. Nesse curso é abordado a questão da percepção das imagens na época de sua reprodutibilidade técnica. O prof fez um breve rapport histórico, passando por algumas questões de História da Arte e também de História da Filosofia, de Descartes a Foucault, sempre pautando com passagens de livros, imagens e trechos de filmes (já na primeira aula tivemos Psicose - que adoro... Ele sempre usa o Hitchcock).
Estou adorando essa aula, apesar de não estar relacionada diretamente com minha pesquisa, pois ela costura vários temas e autores que vi na graduação e no mestrado, sugerindo questões até profundas (pra mim, que estudei filosofia, é ótima; mas como esse Master concentra gente de todas as áreas, tem vários colegas que ficam perdidos).


O FRANCÊS

Eu consigo seguir bem o andamento das aulas, em geral os profs falam mais lento que as pessoas nas ruas, na vida real. E também pelo fato de que eu já conheço os assuntos pois leio bastante a respeito e há algum tempo. Às vezes perco alguma palavra ou expressão, mas isso também aconteceria numa aula no Brasil. Enfim...
 
Minhas anotações são engraçadas: começam em francês salpicadas com palavras ou verbos em português. Eu apelo pra minha língua natal pois a  grafia em francês é complicada (ou será fresca??): duplas consoantes, e muitas vogais pra pouco som. Eu até conheço e sei a grafia correta em francês, mas demoraria mais tempo pra lembrar a ordem certa das 327vogais presentes naquela única sílaba. Ou então palavras terminadas com –tion, como perception, reception, que é mais rápido pra eu escrever percepção em ‘brasileiro’ pois quando escrevo –ção faço um símbolo que é muito mais rápido de escrever.   

Quando não consigo captar a frase toda, faço uns traços, tipo, pra um dia preencher as lacunas....


OS COLEGAS

Meus colegas tem várias formações, idades e nacionalidades diferentes. Pude contabilizar no Master 4 brasileiras, 1 mexicana, 2 italianos, 1 japonesa, 1 iraniana; fora os que não conheço. Tem uma jornalista, uma museóloga, uma fotógrafa e um povo que terminou a facul que agora segue o mestrado, pra aumentar a formação.

Me chama a atenção os vovozinhos que pagam por disciplina pra seguir os cursos que os interessam, somente por hobby. E toda aula tem!

Outra coisa que me chama atenção é que o povo leva seus notebooks pras aulas e fazem suas anotações diretamente neles. Não raro são os velinhos que portam seus laptops... Nada contra, na verdade acho o máximo!  Mas não posso deixar de achar curioso pra mim devido a experiência que tenho principalmente no trabalho: tenho alunos vovozinhos que voltam ao ensino médio pelo prazer de estudar, pela conquista pessoal de obter um diploma, ou porque aprenderam a escrever a pouco tempo e estão dando continuidade a seus estudos. É bastante interessante perceber essa vontade de aprender, de estudar, por motivos diferentes, e com realidades também diferentes.
O exemplo que  eu penso ser o mais emblemático é de Madame Catrine, que deve ter uns 80 anos, uma vózinha típica de cabelos brancos e aparência doce daquela vó que vai fazer um bolo depois do tricô, sabe?. Ela chega à fac em seu Mini Cooper, assiste as aulas de Estética Contemporânea fazendo suas anotações em seu Mac... Uma fofa!


OS PRÉDIOS

Não posso deixar de comentar sobre o prédio: tenho aulas no prédio da Lyon 2 e da Lyon 3. Prédios antigos, históricos, mas muito bem conservados. Lindos, claro. O da Lyon 3 é cortado por um jardim de sonhos. Quando cheguei ainda estava bem cheio e colorido, mas agora pude acompanhar as transformações que o outono trouxe.

A vista de algumas salas são para o jardim, outras mostram a rua. Mas a melhor vista é para o Rhône nessa sala aqui. Muita diferença pra quem via os tiroteios da Mangueira (a favela) pelas janelas da UERJ.


O FUTURO
Estou adorando esse período aqui. Tenho descoberto uma nova possibilidade de leituras sobre o Bachelard, e isso contribuirá bastante para a tese. As aulas me encantam, fizeram ressurgir a Raïssa estudante, a boa aluna. Apesar de nunca ter deixado de estudar, com certeza é diferente, pois há um espanto (no sentido da filosofia grega), uma novidade...
Se pudesse, passaria o resto da vida estudando aqui (essa frase pode parecer forte, mas já pesquisei os cursos oferecidos aqui e ficaria indo da graduação ao máster até terminar de estudar tudo o que despertou meu interesse aqui... Ainda mais sabendo como são as aulas.

CURIOSIDADE
Aqui, a carteirinha de estudante serve pra tudo: como identidade, pra usar a biblioteca, ter desconto no restaurante universitário, enfim...
O curioso é que, estudante ganha desconto em museus, cinemas, shows, como no Brasil, mas é diferente: aqui, ganha-se desconto, e não é a 'meia-entrada'. Entretanto, muitos estabelecimentos 'não-culturais' também dão desconto: salão de beleza, livrarias, até desconto em cerveja eu já aproveitei num bar...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Verdades sobre a França: #4



As francesas podem sair de casa sem tomar banho; podem sair de casa sem escovar os dentes; podem sair de casa sem pentear os cabelos (ou arrumá-los para parecer não pentearam); podem sair de casa com roupa usada vários dias seguidos... MAS NUNCA SEM MAQUIAGEM!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Verdades sobre a França: #3

Os franceses são os melhores usadores e amarradores de cachecol do mundo. Homens, mulheres, crianças... dominam as técnicas e a arte de combinar (ou complementar) com a roupa.

Verdades sobre a França: #2



120% da população acima de 15 anos fuma.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um mês sem mãe

Eu já passei alguns períodos sem minha mãe, e outros sem mãe nenhuma. Mas nunca um mês.
Eis o resultado:



Milhões de roupas nas cadeiras, outras tantas na cama. Compras recém-feitas jogadas no chão. A foto não captou todo o caos das mesas. E a pia estava sem louça, pois como tenho um exemplar de cada utensílio, se eu deixar sujo, não tenho o que usar...



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O dia sem título


Fiquei dias pra escrever esse post pois não conseguia definir um título. Eu gosto de ter o título antes de começar a escrever o texto, e assim fui adiando. Agora mesmo estou escrevendo e o espaço do título está em branco... Mas, como tenho que escrever, verei se até o final terei um nome ou não.

Quero e tenho que escrever sobre o acontecido da sexta-feira da semana retrasada.

                                                    ....

Fui tirar foto pra entregar ao OFII, escritório de imigração, que me fará uma visita em breve (pra constatar que estou aqui). Perguntei a minha amiga padeira onde tirar foto, e ela me disse que qualquer estação de metrô tem máquinas – como no filme da Amélie.

Só que, para tirar foto, tinha que entrar na estação e pra entra na estação, tinha que comprar um bilhete. Feito isso, me direcionei a máquina. Chego lá, descubro que as fotos custam 5 euros, e que a máquina não dá troco. Vejo que não tenho o dinheiro trocado, resolvo ir ao correio, onde tem uma máquina onde vc coloca notas e ela te dá moedas.

Com as moedas na mão, desço novamente na estação de metrô. Quando chego no meio da escada, vejo dois jovens, um de cada lado da roleta de entrada, como se esperassem por algo. Achei estranho; meu medo típico de carioca me deixou em alerta, pensei logo em assalto. Mas fingi estar tudo bem e continuei pelas escadas.

Passo pela roleta (que não é bem uma roleta, são duas portinhas que se abrem) e os dois rapazes aproveitam a minha entrada e passam logo atrás de mim, sem pagar (depois descobri que muitos fazem isso aqui em Lyon).

Vou em direção à máquinas de fotos, mas antes de chegar, fui abordada pelos dois rapazes.  Eles falaram ‘mademoiselle, mademoiselle’, e eu olhei pra trás (erro #1). Aí um deles me perguntou se eu queria passear com eles, eu neguei e ele perguntou o porquê. Eu respondi que não compreendia o que eles falavam (erro #2). Eles ratificaram o convite e eu continuava falando que não entendia. Nisso, outra pergunta deles: ‘de onde vc é?’, e meu erro #3: falar que sou brasileira. Um deles começou a falar em espanhol e falou que eu era muito bonita. Então o convite deles foi mais, digamos, incisivo: ‘vc não quer ir ali pro canto com a gente?’. Nessa hora, eu repeti mais uma vez que não compreendia o que eles falavam entrei na cabine pra tirar a foto. Sentei-me e fechei a cortina e comecei a operar a máquina, como se nada tivesse acontecido. Mas, confesso que fiquei com medo de eles ainda estarem ali quando eu saísse.

Quando terminou todo o processo, levantei, peguei minhas fotos (que ficaram lindas) e fui embora. Meio que em estado de choque. Bem, talvez o termo ‘estado que choque’ seja forte, mas não estava bem. Fiquei pensando em um monte de bobeiras... Foi tenso. Fui andando em direção ao mercado meio que zureta...

Mas, depois quando a poeira baixou, e conversando sobre o fato com meu namorado e com uma colega brasileira da faculdade, deu pra pensar um pouco e ser até racional.

Enfim, vamos separar os elementos de crise:

-Foi a primeira vez que fui assediada aqui na França – devemos acrescentar que num primeiro momento, cheguei a pensar que seria assaltada.

- Foi a primeira vez que fui assediada aqui, e em uma língua que ainda não domino. Tipo, eu entendi o que eles falavam, mas não sabia me defender, não sabia o que dizer pra mandar eles embora, nem educadamente, nem grosseiramente. Eu não sabia mandá-los a merda!

- Eu dei atenção pra eles. Eles me abordaram educadamente e eu respondi. Eu poderia ter ignorado eles... como faço no Brasil. Mas não o fiz.

- Ter falado que era brasileira e que não os entendia piorou: é grande a fama da mulher brasileira no mundo e já ouvi relatos de como a pessoa muda o andamento da conversa (e de atitudes) ao saber da nacionalidade brasileira de uma moça aqui na França.

- Minha colega não acreditou quando contei a história pra ela. Não acreditou na minha reação. Ela falou que, por ser carioca, esperava outra reação minha, por sermos mais descolados e despachados. Mas, de novo vem a barreira da língua e também porque fui pega de surpresa. Foi inusitado pra mim.

                                                  ....


Enfim, minha piadinha a respeito:

No ruim, no ruim, eles até que foram educados. Lembrando que foram dois convites: um pra passear (esse é até fofo e romântico, não acham?) e outro pra ir ao canto (well...). E eles ainda falaram que eu era muito bonita.

No Brasil, os assédios* (se é que podemos chamar de assédio o que vemos por lá) são muito mais mal educados, grosseiros, até. Ninguém nunca me convidou pra passear; somente fizeram análises grotescas de minha anatomia, elogios a minha bunda, ou sons que são nojentos. 

*Referindo-me a cantadas de rua, as que acontecem meio que gratuitamente. Não me refiro ao papo que surge com algum sentido e intenção de fato.