segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A faculdade


Finalmente, depois de 2 meses de burocracia, dúvidas e espera, minha matrícula na Université de Lyon 3 foi efetivada. Estava esperando a confirmação para escrever o texto a respeito da faculdade.
Tenho muito a escrever e vou dividir os temas.


AS AULAS

Meu diretor de tese aqui (no Brasil, ele seria chamado de co-orientador) sugeriu que eu assistisse 3 cursos: dois ministrados por ele, e outro com outro prof. Mas, estou seguindo 4 aulas.

- A primeira é de Filosofia Geral, que serve para 3 graduações diferentes. Ele está falando sobre a Pensée Poétique, uma espécie de pensamento não-lógico, não-analítico, não-sistemático, cuja fundamentação reside nos escritos de Bachelard, Heidegger e Merleau-Ponty. Já vimos Heidegger e essa semana começamos o Merleau-Ponty.

- Na outra, que é do curso de Master em Cultura Visual, ele dá o curso Esthétique et Ethique des images. No começo, ele falou do surgimento do termo estética, e fez um rápido passeio histórico, desde Platão a Kant; passou também pela questão da aceitação das imagens para o Pensamento Cristão, desde seu início até o Renascimento; Falamos da atualidade, da quantidade de imagens que são produzidas graças ao aparato tecnológico, e também, a própria questão da tecnologia das imagens; Depois falamos sobre as imagens científicas (como a ciência se faz hoje atrelada as imagens) e dos usos das imagens pela medicina. As últimas aulas tem sido sobre formação de imagens pela mente humana (imaginação, fantasias, utopias...) e aí começamos a falar sobre o Bachelard. Apesar de o Bachelard só estar aparecendo agora, essa é minha aula favorita.

- O outro curso que o Prof me recomendou é exclusivamente sobre Bachelard e serviu pra mim como uma espécie de resumão: vimos a estrutura dos livros sobre a imaginação dos elementos, e das duas poéticas. Esse curso já acabou.

- Uma colega brasileira me convidou pra assistir outra aula: Esthétique Contemporaine, ministrado por um professor italiano, também no mestrado de Cultura Visual. No começo, ele estava falando de W.Benajmim, G. Deleuze e Zizek (e foi esse o motivo com o qual a Célia me convenceu a assistir), mas na verdade a aula é temática, e não sobre um livro ou autor. Nesse curso é abordado a questão da percepção das imagens na época de sua reprodutibilidade técnica. O prof fez um breve rapport histórico, passando por algumas questões de História da Arte e também de História da Filosofia, de Descartes a Foucault, sempre pautando com passagens de livros, imagens e trechos de filmes (já na primeira aula tivemos Psicose - que adoro... Ele sempre usa o Hitchcock).
Estou adorando essa aula, apesar de não estar relacionada diretamente com minha pesquisa, pois ela costura vários temas e autores que vi na graduação e no mestrado, sugerindo questões até profundas (pra mim, que estudei filosofia, é ótima; mas como esse Master concentra gente de todas as áreas, tem vários colegas que ficam perdidos).


O FRANCÊS

Eu consigo seguir bem o andamento das aulas, em geral os profs falam mais lento que as pessoas nas ruas, na vida real. E também pelo fato de que eu já conheço os assuntos pois leio bastante a respeito e há algum tempo. Às vezes perco alguma palavra ou expressão, mas isso também aconteceria numa aula no Brasil. Enfim...
 
Minhas anotações são engraçadas: começam em francês salpicadas com palavras ou verbos em português. Eu apelo pra minha língua natal pois a  grafia em francês é complicada (ou será fresca??): duplas consoantes, e muitas vogais pra pouco som. Eu até conheço e sei a grafia correta em francês, mas demoraria mais tempo pra lembrar a ordem certa das 327vogais presentes naquela única sílaba. Ou então palavras terminadas com –tion, como perception, reception, que é mais rápido pra eu escrever percepção em ‘brasileiro’ pois quando escrevo –ção faço um símbolo que é muito mais rápido de escrever.   

Quando não consigo captar a frase toda, faço uns traços, tipo, pra um dia preencher as lacunas....


OS COLEGAS

Meus colegas tem várias formações, idades e nacionalidades diferentes. Pude contabilizar no Master 4 brasileiras, 1 mexicana, 2 italianos, 1 japonesa, 1 iraniana; fora os que não conheço. Tem uma jornalista, uma museóloga, uma fotógrafa e um povo que terminou a facul que agora segue o mestrado, pra aumentar a formação.

Me chama a atenção os vovozinhos que pagam por disciplina pra seguir os cursos que os interessam, somente por hobby. E toda aula tem!

Outra coisa que me chama atenção é que o povo leva seus notebooks pras aulas e fazem suas anotações diretamente neles. Não raro são os velinhos que portam seus laptops... Nada contra, na verdade acho o máximo!  Mas não posso deixar de achar curioso pra mim devido a experiência que tenho principalmente no trabalho: tenho alunos vovozinhos que voltam ao ensino médio pelo prazer de estudar, pela conquista pessoal de obter um diploma, ou porque aprenderam a escrever a pouco tempo e estão dando continuidade a seus estudos. É bastante interessante perceber essa vontade de aprender, de estudar, por motivos diferentes, e com realidades também diferentes.
O exemplo que  eu penso ser o mais emblemático é de Madame Catrine, que deve ter uns 80 anos, uma vózinha típica de cabelos brancos e aparência doce daquela vó que vai fazer um bolo depois do tricô, sabe?. Ela chega à fac em seu Mini Cooper, assiste as aulas de Estética Contemporânea fazendo suas anotações em seu Mac... Uma fofa!


OS PRÉDIOS

Não posso deixar de comentar sobre o prédio: tenho aulas no prédio da Lyon 2 e da Lyon 3. Prédios antigos, históricos, mas muito bem conservados. Lindos, claro. O da Lyon 3 é cortado por um jardim de sonhos. Quando cheguei ainda estava bem cheio e colorido, mas agora pude acompanhar as transformações que o outono trouxe.

A vista de algumas salas são para o jardim, outras mostram a rua. Mas a melhor vista é para o Rhône nessa sala aqui. Muita diferença pra quem via os tiroteios da Mangueira (a favela) pelas janelas da UERJ.


O FUTURO
Estou adorando esse período aqui. Tenho descoberto uma nova possibilidade de leituras sobre o Bachelard, e isso contribuirá bastante para a tese. As aulas me encantam, fizeram ressurgir a Raïssa estudante, a boa aluna. Apesar de nunca ter deixado de estudar, com certeza é diferente, pois há um espanto (no sentido da filosofia grega), uma novidade...
Se pudesse, passaria o resto da vida estudando aqui (essa frase pode parecer forte, mas já pesquisei os cursos oferecidos aqui e ficaria indo da graduação ao máster até terminar de estudar tudo o que despertou meu interesse aqui... Ainda mais sabendo como são as aulas.

CURIOSIDADE
Aqui, a carteirinha de estudante serve pra tudo: como identidade, pra usar a biblioteca, ter desconto no restaurante universitário, enfim...
O curioso é que, estudante ganha desconto em museus, cinemas, shows, como no Brasil, mas é diferente: aqui, ganha-se desconto, e não é a 'meia-entrada'. Entretanto, muitos estabelecimentos 'não-culturais' também dão desconto: salão de beleza, livrarias, até desconto em cerveja eu já aproveitei num bar...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Verdades sobre a França: #4



As francesas podem sair de casa sem tomar banho; podem sair de casa sem escovar os dentes; podem sair de casa sem pentear os cabelos (ou arrumá-los para parecer não pentearam); podem sair de casa com roupa usada vários dias seguidos... MAS NUNCA SEM MAQUIAGEM!