quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Aulas e burocracias

               Enfim começaram as aulas e tenho tentado me achar... Não nas matérias, no conteúdo: tô perdida kantianamente e a prioriamente, ou seja, no tempo e espaço: nos prédios da faculdade e nos horários das aulas...

               A burocracia ainda me atormenta e tem tomado muito tempo, além de dar dor de cabeça. E pelo visto, apareceu outra montanha a minha frente...Pra vcs terem noção, não estou regularmente matriculada/inscrita. Mas como também não estou oficialmente 'dentro do país', tá tudo tranquilo : UMA ILEGALIDADE SÓ!!!!


               Vou escrever um texto sobre as aulas e as faculdades, e em breve o postarei, junto com algumas fotos.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Domingo é dia de feira



                Acordei e me aprontei pra ir a missa na Catedral de São João Batista. Vi como estava o tempo e vesti minha jaqueta de couro e, pra me proteger do vento em cima das pontes, peguei meu cachecol verde.
        
             Ao chegar na 1ª ponte percebo que tem algo de diferente: não tem pessoas nem carros. Mas o mais estranho foi que não ventava: todos os dias que cruzei essa ponte ventava absurdamente, mas hoje não... Talvez seja a pressa das pessoas, carros e bicicletas que produza o vento dos dias de semana.
              A 2ª ponte estava mais movimentada: dois guardas de trânsito controlavam o tráfego de carro para que os ciclistas passassem (não se tratava dos ciclistas habituais, rotineiros, mas sim de ciclistas uniformizados, equipados, numerados que participavam de um circuito de ciclismo pela cidade).

Enfim, chego a praça de St Jean. Ao redor da igreja havia algumas tendas vendendo quinquilharias antigas, como na feira da Praça XV ou da Lavradio. Dou uma olhada breve, mas os sinos me chamam e fui assistir a missa.

A missa foi em francês – o Filipe achava que poderia ser em latim.  Meninas vestidas de preto com túnicas brancas compunham o coral – e pareciam anjos cantando. Dois coroinhas ajudam no altar e uns 6 ou 8 padres de outras nacionalidades participaram da missa também. Tinha um japa, um peruano e um brasileiro.
Conforme a missa acabou, saí e passeei com calma pelas antiguidades. Vi algumas coisas interessantes... Muita coisa me fez lembrar de minha mãe...
 





Comecei a voltar pra casa, mas ao atravessar a ponte caí numa feira. Aproveitei pra comprar frutas e legumes e me divertir um pouquinho também. Aquele som de feira em francês me fez rir em vários momentos. É engraçado como eles deixam tudo exposto, sem proteção contra moscas e outros insetos... Até os frangos assando naquelas ‘televisões de cachorro’ ficam desprotegidos... OS franceses tem um cuido diferente com relação a comida: eles usam luvas pra te servir ou preparar a comida, mas pegam o dinheiro com a mesma luva... que se faz, portanto, desnecessária (a não ser que a luva seja pra não sujar as mãos deles com comida..)

Queijos...













Salames e linguiças...

Azeitonas temperadas....  















Frango a 'céu aberto'
















Pães a 'céu aberto'
















Menino babando nas tortas...













Morango e essa frutinha vermelha da Amélie...




















Era possível comprar ostras e degustá-las ali mesmo, com sal, limão  e cerveja






























 Minha feira...




Almoço
 

domingo, 16 de setembro de 2012

"Crescendo"



Esse será breve pois quer escrever logo sobre domingo.

Ontem, sábado, fui ao shopping e ao supermercado. Andei no centre comercialle somente pra pesquisar casacos. Ah, comprei meu tênis de corrida também (preciso continuar a correr aqui – essa vida de croissants e queijos não me tornará mais magra).

Entrei na Adidas e pirei... Várias bolsas ultra-cools e baratas... Mas a que eu quero, do Olympique Lyonaiss está muito cara. Talvez eu peça pro Papai Noel. Aí, enquanto esperava o vendedor trazer meu tênis de corrida, fiquei olhando os outros modelos, tipo botinha, de tudo quanto é material, até de couro. Pensei: “preciso de um sapato que esquente, porque não este?...”
Aí veio a epifania do dia: “Raissa, cresce, vc não é mais uma adolescente, vista-se como uma mulher!” Isso já me vem a cabeça há algum tempo, já tentei aderir ao salto alto algumas vezes, mas sempre acabo andando como uma pata, com o pé esfolado e com uma coleção de saltos encostados no armário.  Talvez influenciada pelas femmes daqui, sempre elegantes e bem vestidas, até sem salto, resolvi seguir a epifania e me comprometer a me vestir como uma mulher, deixar o look adolescente pra traz (o que é um pouco difícil visto que a moda sugere que sigamos uma pegada mais roqueira – que eu adoro). E aqui terei a oportunidade de crescer em tantos sentidos, nesse será apenas mais um!

Fiz amizade com uma portuguesa casada com um brasileiro que moram aqui.

Fui ao Carrefour. Tinha uma lista em mente, que foi devidamente seguida. Na volta pra casa, outra epifania: minha primeira compra de mercado adulta: nada de besteiras, só coisas sérias – até o chocolate que comprei é amargo.

Pra terminar, um pouco sobre a cidade: O shopping que visitei fica a 1,3 km de minha casa. Fui e voltei andando por uma parte da cidade ao qual ainda não conhecia. E, depois que alguns quarteirões o visual foi mudando, foi ficando sem tanto rococó e mais sério e linear. Não tirei fotos, mas pretendo voltar pra comprar o meu casaco e aí ilustro pra vcs.

O dia mais feliz de minha existência !!!


Dia 3:
             Hoje estava determinada a visitar as Ruínas do Teatro Romano. E assim o fiz. Atravessei a primeira ponte sobre o rio Rhône, a praça de Bellecour (que fica no meio do Presq’île, a “Quase-ilha”, ou “Península”) e depois a ponte do rio Saône.  

Antes de começar a subir, chego a praça de Saint Jean. Uma fofura... très jolie. Na praça fica a Primatiale Cathedral de Saint Jean-Baptiste. Tiro algumas fotos do lado de fora e resolvo entrar. Imediatamente fui invadida por um sentimento tão grandioso, por um arrebatamento que tenho certeza que não tem nada a ver com admiração estética. Foi Deus. Pronto. Senti uma grande presença de Deus, indescritível. Nem preciso dizer que chorei né? [aí vcs podem pensar ‘grandes coisas, ela também chorou no McDonalds...’ É verdade, mas é diferente, incomparável.] Naquele momento me senti a pessoa mais feliz do mundo (e ainda estava longe das Ruínas romanas). Sabe, poder estar poder estar ali, poder enxergar e contar as maravilhas que estou vivendo, é algo que não tem preço...
Sentei e rezei. Chorei... Tirei algumas fotos.


Comecei a subida da colina onde fica a Basísica de Notre Dame de Fouvière e o Teatro Romano. Meio perdida, pensando na vida. Estava um sol forte, mas corria um vento muito gelado. Antes de chegar aos meus objetivos passei por um colége de segundo grau. Cara, muito louco: vi adolescentes vestidos conforme as revistas de moda. As meninas mega-maquiadas, calça jeans skini, camisas jeans ou camisetas e jaquetas de couro, lenços de todos os tipos amarrados no pescoço, saltos e/ou botas. Ah, mochila, mochila é para os fracos: eram bolsas-bolsas mesmo, dessas que usamos no ombro, de couro, de grife. Os meninos de calças jeans e tênis (Adidas ou Puma) blusas de botão, alguns de suéter, também sem mochila: bolsas a tiracolo da Adidas... Óculos escuros, sempre.

Foto de duas moças que passaram por mim quando eu descia. Olha o naipe.


Chegando as Ruínas foi outro arrebatamento... Indescritível estar ali também. Em Lyon se respira história e cultura a cada esquina, a cada piscar de olhos. Mas ali é diferente. Também não contive a emoção e chorei. Não tenho dúvidas em afirmar que esse foi o dia mais feliz de minha existência!


Depois, segui andando e cheguei a Basílica de Fouvière, mas confesso que nada mas, como está em reforma por dentro, não foi tão arrebatadora quanto as outras visitas. E também acho que prefiro me encantar com ela do lado de cá dos rios, onde ela aparece a cada esquina, silenciosa e discreta, todos os dias.

Pra terminar, entrei numa papelaria só por curiosidade. Se a Raissa já pira nas papelarias sem graça do Brasil, imagina numa cheia de encantos franceses.... Tive vontade de comprar um monte de coisas pra presentear meus miguxos, mas ainda não está na hora de comprar presentes.



Depois, só uma caminhadinha nos Quais... Cada ponte é um flash!

sábado, 15 de setembro de 2012

Dia 2: o dia do surto capitalista



Acordei sabendo que tinham se passado menos de 24 horas do prazo de 48 que a moça do banco tinha me dado pra habilitar meu cartão de crédito, mas minha intuição ou minha teimosia me fizeram tentar mais uma vez. Voilà: estava funcionando e já tinha internet!!!
Fiz algumas coisinhas, e quando foi meio dia parti pra rua. Liguei pra mamy e não consegui falar com p Filipe. Fui a uma loja de serviços telefônicos diferente e o rapaz que me atendeu era uma figura: falava árabe com sotaque francês ou francês com sotaque árabe. Quando eu disse que tinha ligado pro Brasil ele falou assim: “Salvador? Rio?”, daí eu disse que era carioca e na hora ele “Samba, Carnaval!!”. Falei “Oui.” A senhora turca não estava entendendo nada e ficou resmungando, daí eu falei pra ela que era brasileira e ela me olhou de cima a baixo e virou a cara.


Parti rumo a praça da Bellecour. A praça em si não me mexeu tanto: é só bonita quanto a cidade toda. Mas, na frente da praça reside a perdição: é um dos centros comerciais a céu aberto da cidade: lojas e lojas de sapato, roupas, livros, CDs, perfumes, maquiagem... Eu surtei!!! Saí de casa com o propósito de ver as ruínas romanas, ou seja, história, cultura, mas fiquei mesmo no consumo. Mas, em minha defesa digo que, além de gostar de moda, essa andança tinha um objetivo muito sério: pesquisar sapatos e casacos, pois não tenho nada adequado pra o frio que me espera daqui (aliás, ontem mesmo já estava fazendo 16 graus).
Fiquei em dúvida se os casacos que vi por lá serão suficientes pro frio lyonaiss e acabei não comprando. Quanto a sapato, só tô em dúvida com relação ao estilo, pois todos tem forro quentinho pros meus dedinhos.

Entrei na H&M, que sempre vi no Esquadrão da Moda americano e ficava morrendo de vontade de comprar as coisas de lá. Fiquei de olho numas blusas, mas nem experimentei nada. Fui pra parte de lingerie e fiquei com medo: todos os sutiãs tem enchimento. Mas não pouquinho como os do Brasil não... É muita espuma! Até nos pra seios grandes, que tecnicamente não precisaria de ‘engano’, tem. Tipo, acho que o objetivo é ficar parecendo atrizes de pornô americano. Uma loucura!
Enfim, vou voltar lá pra pegar minhas blusas e quem sabe comprar o casaco, pois foi lá que eu vi um (mas fiquei na dúvida quanto a eficácia – mas isso vou tirar com meus informantes)

Entrei em mais duas lojas femininas, mas muita coisa outonal (afinal, é outono), mas que pra mim não serve pois o que é outono pra eles é inverno pra mim. Só tinha muita malha de tricô, muitos casaquinhos de vó, que já tenho e não é o que preciso. Ah, tem cachecol de tudo quanto é forma, tamanho, material... Outro surto!

Andei até o outro rio, o Saône e voltei. Aí entrei numa loja grande, chamada Printemps. Imagine uma C&A mega luxuosa: essa é a Printemps. Entrei pela porta da seção de perfumes: várias ilhas de produtos separados por marca. Chanel, Dior me chamaram logo atenção, mas nem vi o preço do meu perfume (que também tenho que comprar pois estou sem desde março deste ano, e não queria comprar lá e pagar mais caro sabendo que viria pra cá). Depois dos cosméticos e perfumes vinham as bolsas, mas antes de chegar lá desci pela escada rolante até a parte de sapatos. Logo ao pé da escada tinha uma moça dando um folheto e falando que devido ao início da coleção aquele dia era a festa do sapato. O que isso significa? Moças muito arrumadas e muito bonitas andando pela loja com sapatos novos em bandejas. Achei muita frescurada e saí da loja sem mesmo ver roupas.

Pra me privar de outro surto, preferi nem entrar nas lojas de maquiagem (Séphora e Mac).





Pra me privar de outro surto, preferi não entrar na Fnac, pois já tinha surtado com a entrada da loja... Vou deixar pros surtos de livro quando começarem as aulas. Agora estou é passeando.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Dia 1



  
Com o fuso ainda confuso, acordei as 9 e desci pra resolver as pendências com a Isabelle, a recepcionista. É engraçado: ela é muito bonita, mas tem um hálito horrível. Para acessar a internet, tivemos que reconfigurar os números de ip e de getaway de meu laptop. Como descobrimos isso? Isabelle ligou pro suporte técnico da empresa e eu (!?) tive que responder algumas perguntas do rapaz. Até que foi tranquilo no começo, depois complicou. Então fizemos assim: Isabelle ao telefone repetia o que o rapaz dizia e eu tentava achar de acordo com minha tradução simultânea mambembe – meu laptop está em português, claro. Tentei mudar a configuração de língua, mas para fazer isso preciso estar conectada (!!!) - . Funcionou até um momento, mas depois complicou pra nós duas e ela assumiu o posto enquanto o rapaz apenas falava “clica no último botão, escreve no primeiro espaço”. Tudo ia muito bem quando a ligação caiu e bateu o desespero – pois ficamos na espera pra sermos atendidas por 15 minutos... Enfim, tentamos o internet Explorer e a conexão apareceu. Tudo estaria resolvido? Não, pois para de fato conectar eu devo assinar um serviço pago, informando o número do cartão de crédito. Não vi problema algum se não fosse o meu cartão estar bloqueado para uso no exterior – esqueci de fazer isso no meio de tantas outras coisas... Enfim, eu queria usar a internet para desbloquear o cartão, mas precisava do cartão para usar a internet: mais uma das querelas administrativas.
Alors, tentei comprar um cartão de telefone público, mas não achei na primeira tabacaria (é onde se vende cartão de telefone público e de celular, bilhete de loteria, pequenos lanches e até cigarro. Quando me dirigia a segunda loja, eu encontrei um lugar com vários telefones que cobram por ligação. Era engraçado pois estava assim na porta “appeler por Ghana, Camaron, Indie, Angola”... Enfim, consegui ligar. Falei com mamy, com o Filipe e com o banco – pra tentar desbloquear o uso no exterior; eis que a atendente me fala que o desbloqueio leva dois dias. Ou seja, continuar esperando.

Fui atrás de quelque chose pra tomar café, só aí me dei conta que já era quase hora do almoço. Então acrescentei ao croissant um sanduiche de frango e salada, duas maçãs e uma coca (mas não comi tudo na hora). Metade do sanduba foi almoço; o resto será janta.
Depois de comer comecei a resolver as burocracias: fui ao banco abrir uma conta. Mas só consegui marcar um rendez-vous para sexta (nota mental: lembrar que vanvredi é sexta!).
Comprei um celular pré-pago.
 Fui ao correio enviar o formulário para notificar ao governo francês que estou aqui – e enfim completar meu pedido de visto (é isso mesmo: o visto só é válido depois que eu receber um documento, a carte de sèjour, que só será emitido depois de uma exame médico e da visita do consulado ). No correio tudo é automático: a máquina de xerox; a máquina que troca sua nota por moedas (pois a máquina de xerox só funciona com moedas); a máquina de selos. Por sorte o tiozinho foi muito cordial e me ajudou com todas as máquinas e na escolha do envelope (sim, pra isso também tem frescura). Aproveitei e consegui sacar o dinheiro com meu visa travel Money no correio (tinha tentado no banco, mas sem sucesso).
Com dinheiro no bolso, feliz da vida, peguei uma maçã e fui andar no Quais do rio Rhone. Um espetáculo! Ótimo lugar pra passear, fazer exercícios ao ar livre, ler, sentar e fazer piquenique (vi lyonaisses fazendo tudo isso ). Segui ao longo do rio quando meu passeio foi interrompido com um presente: uma ligação do meu namorado. Continuei uma breve caminhada, não mais pelo rio, mas pelas ruas... cada uma mais linda que outra, cada prédio mais fofo que outro. Então: não posso morar em Lyon porque não saberia escolher qual lugar!
Fiz algumas compras (utensílios de cozinha) e voltei pra casa. Nessas andanças vi várias lojas de ‘gringo’: roupas, comida, artefatos de várias nacionalidades. E não é somente as lojas, que mais tem aqui é árabes, chineses, japoneses africanos, indianos, mulçumanos... Mas, ainda nada do Brasil e nenhum brasileiro. Muitos deles se vestem de roupas típicas, e as mulçumanas sempre de véu, com saias longas, casaco acinturado e olhos muito bem pintados.
Os franceses são uma coisa a parte: os jovens se vestem de tudo quanto é maneira: couro com jeans e tênis; jaquetas esportivas com salto alto; bota com camiseta e cachecol pesado... Os jovens de outras nacionalidades misturam o tradicional de seu país com as modernidades francesas. Os mais velhos, os quarentões são a elegância pura, saída de qualquer revista de moda, muito bem alinhados. Ainda não vi muitos velinhos, só os árabes (quase que) de burca. As crianças são muito fofas...com mini roupinhas da moda, mas sempre com um acessório colorido, como galochas e óculos.

Ah, preciso contar: numa das vezes que voltei ao alojamento eu subi no elevador com uma jovem linda!! Vestido preto debaixo do trent coat marfin, meia calça e escarpin pretos. Maquiagem impecável. E aquele velho cheiro que associamos aos franceses em geral...SOVACO! Afe, empesteou o elevador todo – dei graças aos deuses de morar no segundo andar... Ela será apenas a primeira.

Outro detalhe: tenho que me acostumar que a ideia de que a cidade está de cabeça pra baixo no Google street view e no Maps...  Senão vou acabar me perdendo.

A realização do sonho (parte 0)


A chegada

Enfim, eis que chegou o dia... Depois de nove meses de tortura burocrática consegui embarcar para a viagem de minha vida: estudar e morar na Europa.

Durante o processo, perdi as contas que quantas ‘contagens regressivas’ eu fiz, algumas dramáticas, todas em vão. Quando finalmente tudo se acertou me foi dado o OUI, tive 10 dias pra finalmente fazer as malas (fazer as malas é mais que colocar roupas e coisas numa valise. Fazer as malas é se preparar psicologicamente, emocionalmente e começar a se despedir de quem esteve ao seu lado durante o processo, apoiando, incentivando e confortando a cada NÃO dado pelo sistema burocrático).
Como eu disse foram muitas as contagens regressivas em vão. Porém, as mais recentes foram engraçadas, pois eu achava seriam as últimas; mas na verdade, sempre aparecia outra: o último dia em casa; a espera no aeroporto do Rio e de Frankfurt; os voos em si.

O terror da língua, entretanto, começou mais cedo, pois eu achava que só aconteceria quando eu desembarcasse em Lyon (embora eu admita que tenha melhorado muito no francês, ainda não me sinto segura pra encarar o dia-a-dia da língua). No aeroporto do Rio, na fila para o embarque fui cercada de alemães: além dos passageiros, a tripulação falava um inglês carregado de sotaque germânico que não me era muito entendível. Detalhe: eu não conseguia me expressar em inglês: eu travava e tinha que parar para pensar (e em minha mente surgiam um monte de expressões em francês – pelo menos isso era um bom sinal). No aeroporto de Frankfurt o estranhamento linguístico ocorreu devido as pequenas aglomerações nipônicas.

Creio que a última contagem regressiva ocorreu em Francoforte: aquela seria a última espera até o início do sonho e do desespero. [Sim, estava desesperada pois enfim teria que gastar o parco francês que adquiri, sem ter preparado devidamente para ouvi-los falando com sotaque e rapidez]. Não sei se estou preparada, mas estou aqui e é isso que importa. Não estar preparada não me impediu que tentar – e de conseguir – chegar aqui.

Durante a última semana, conforme eu falava pras pessoas sobre minha conquista, muitos me perguntavam se eu estava ansiosa ou nervosa. De fato não estava. Tampouco estava eufórica – como eu supostamente deveria estar. Como o processo foi demorado e intenso, eu fiquei meio que anestesiada na última semana em casa. A ficha não tinha caído, e minha prima disse que só cairia quando eu passasse pela imigração (Camila passou por algo semelhante). Essa espera para que a ficha caísse também acompanhou a últimas contagens regressivas.

E assim desembarquei em Frankfurt sob uma chuva torrencial e fiquei no aeroporto a espera de minha conexão pra Lyon. Passei por um posto da imigração, tranquila, apenas um carimbo.  Achei normal, pois pensei que na França, meu país de destino, seria enfim arguída de minhas intenções. E eu toda armada – com a documentação toda na mochila. Depois de um atraso de uma hora e meia, decolei rumo ao sonho.

Ao chegar em Lyon, debaixo de uma garoa, peguei minha mala e saí pela porta: nenhum agente de imigração, nenhuma pergunta, nenhum nada... Só isso: saí saindo pela porta, como um ‘nativo’ e andei em direção ao taxi. Somente quando já estava há uns quinze minutos do aeroporto é que fui me lembrar da imigração – mas agora, já era tarde demais. Sim, tinha sido fácil demais... e a ficha ainda não tinha caído.
Conversei com o taxista, que falou que meu francês é melhor do que eu imaginei. Ele me mostrou o quarteirão onde o cinema foi inventado pelos irmãos Lumière, além de outros pontos turísticos/históricos – inclusive minha faculdade.  Chegando ao alojamento, que já estava fechado, o taxista ligou para que a atendente viesse abrir a porta pra mim – ela deixa o posto dela as 18:00, e devido ao atraso, só cheguei as 20:00. Pedi o tel particular da atendente pra uma moça que deixava o alojamento, e o taxista ligou pra ela. Tentei incluir mais alguns euros no preço da corrida, pra pagar pelos telefonemas, mas ele se recusou.

Entrei no quarto, a moça ligou a internet, mas esqueceu de me dar a senha do wi-fi: ou seja, fiquei incomunicável – mas só vi isso depois que ela tinha ido embora. Tirei algumas coisas da mala e fui tomar banho. Não tem chuveiro, só um chuveirinho; e eu não soube ligar a água quente, logo, esse foi meu primeiro banho de gato na França (embora eu dissesse que eu faria isso quando viesse morar aqui, confesso que esse foi a contra gosto). Eu queria tomar um banho correto, mas faltou habilidade pra segurar o chuveiro com uma mão e me ensaboar com outra. Lavar o cabelo deve ser ainda mais complicado...

Caí na rua, agora não chovia mais. Andei ‘quase a esmo’ numa noite lyonaisse ligeiramente fria. [Por que quase a esmo? Porque já tinha percorrido algumas daquelas ruas no Google street view. Por que ligeiramente fria? Pois 19 graus é fria pra mim, e não para os nativos que passeavam de bermudas, shorts e minisaias...]. As ruas estavam molhadas e cheias daquelas folhas que vemos na bandeira do Canadá, amareladas, avisando pra mim que é outono. Entrei no McDonalds e depois de fazer meu pedido meio que no escuro (mas consegui o que eu queria!!!) sentei-me de costas pro balcão, de frente pra rua. Foi engraçado ouvir aqueles jovens falando de maneira leve e descontraída, algumas vezes com sotaques indecifráveis pra mim. Ali, naquele momento, de frente pro meu Royale Chesse, caiu a ficha: RAISSA, VOCÊ ESTÁ NA FRANÇA!!! Nesse momento eu chorei de alegria e felicidade.

Antes de sair perguntei onde poderia encontrar um telefone público. Chegando ao lugar, não consegui fazer as ligações porque não comprei o cartão telefônico no aeroporto (viu no que dá sair andando avoadamente pelo aeroporto rumo ao táxi?) e também não consegui fazer uma ligação a cobrar pois a operadora me pedia um número de cartão de crédito (??? – Juro que não entendi também) e eu não desbloqueei meu cartão antes de vir pra cá. Ou seja, não consegui ligar pra casa, e como estava sem internet, não consegui avisar que tinha chegado e que estava viva. Só me restou enviar mensagens de conforto, via orações, pra minha mãe, pra que ela fique tranquila até amanhã de manhã, quando vou enfim resolver tudo.


(Escrito na noite de 11/09/2012, entre 22:00 e 23:00, após voltar do McDonald, Lyon, França)