A chegada
Enfim, eis que chegou o dia... Depois de nove meses de
tortura burocrática consegui embarcar para a viagem de minha vida: estudar e
morar na Europa.
Durante o processo, perdi as contas que quantas ‘contagens
regressivas’ eu fiz, algumas dramáticas, todas em vão. Quando finalmente tudo
se acertou me foi dado o OUI, tive 10 dias pra finalmente fazer as malas (fazer
as malas é mais que colocar roupas e coisas numa valise. Fazer as malas é se
preparar psicologicamente, emocionalmente e começar a se despedir de quem
esteve ao seu lado durante o processo, apoiando, incentivando e confortando a
cada NÃO dado pelo sistema burocrático).
Como eu disse foram muitas as contagens regressivas em vão. Porém,
as mais recentes foram engraçadas, pois eu achava seriam as últimas; mas na
verdade, sempre aparecia outra: o último dia em casa; a espera no aeroporto do
Rio e de Frankfurt; os voos em si.
O terror da língua, entretanto, começou mais cedo, pois eu
achava que só aconteceria quando eu desembarcasse em Lyon (embora eu admita que
tenha melhorado muito no francês, ainda não me sinto segura pra encarar o
dia-a-dia da língua). No aeroporto do Rio, na fila para o embarque fui cercada
de alemães: além dos passageiros, a tripulação falava um inglês carregado de
sotaque germânico que não me era muito entendível. Detalhe: eu não conseguia me
expressar em inglês: eu travava e tinha que parar para pensar (e em minha mente
surgiam um monte de expressões em francês – pelo menos isso era um bom sinal). No
aeroporto de Frankfurt o estranhamento linguístico ocorreu devido as pequenas
aglomerações nipônicas.
Creio que a última contagem regressiva ocorreu em
Francoforte: aquela seria a última espera até o início do sonho e do desespero.
[Sim, estava desesperada pois enfim teria que gastar o parco francês que
adquiri, sem ter preparado devidamente para ouvi-los falando com sotaque e
rapidez]. Não sei se estou preparada, mas estou aqui e é isso que importa. Não
estar preparada não me impediu que tentar – e de conseguir – chegar aqui.
Durante a última semana, conforme eu falava pras pessoas
sobre minha conquista, muitos me perguntavam se eu estava ansiosa ou nervosa.
De fato não estava. Tampouco estava eufórica – como eu supostamente deveria
estar. Como o processo foi demorado e intenso, eu fiquei meio que anestesiada
na última semana em casa. A ficha não tinha caído, e minha prima disse que só
cairia quando eu passasse pela imigração (Camila passou por algo semelhante).
Essa espera para que a ficha caísse também acompanhou a últimas contagens
regressivas.
E assim desembarquei em Frankfurt sob uma chuva torrencial e
fiquei no aeroporto a espera de minha conexão pra Lyon. Passei por um posto da
imigração, tranquila, apenas um carimbo.
Achei normal, pois pensei que na França, meu país de destino, seria
enfim arguída de minhas intenções. E eu toda armada – com a documentação toda
na mochila. Depois de um atraso de uma hora e meia, decolei rumo ao sonho.
Ao chegar em Lyon, debaixo de uma garoa, peguei minha mala e
saí pela porta: nenhum agente de imigração, nenhuma pergunta, nenhum nada... Só
isso: saí saindo pela porta, como um ‘nativo’ e andei em direção ao taxi.
Somente quando já estava há uns quinze minutos do aeroporto é que fui me
lembrar da imigração – mas agora, já era tarde demais. Sim, tinha sido fácil
demais... e a ficha ainda não tinha caído.
Conversei com o taxista, que falou que meu francês é melhor
do que eu imaginei. Ele me mostrou o quarteirão onde o cinema foi inventado
pelos irmãos Lumière, além de outros pontos turísticos/históricos – inclusive
minha faculdade. Chegando ao alojamento,
que já estava fechado, o taxista ligou para que a atendente viesse abrir a
porta pra mim – ela deixa o posto dela as 18:00, e devido ao atraso, só cheguei
as 20:00. Pedi o tel particular da atendente pra uma moça que deixava o
alojamento, e o taxista ligou pra ela. Tentei incluir mais alguns euros no
preço da corrida, pra pagar pelos telefonemas, mas ele se recusou.
Entrei no quarto, a moça ligou a internet, mas esqueceu de me
dar a senha do wi-fi: ou seja, fiquei incomunicável – mas só vi isso depois que
ela tinha ido embora. Tirei algumas coisas da mala e fui tomar banho. Não tem
chuveiro, só um chuveirinho; e eu não soube ligar a água quente, logo, esse foi
meu primeiro banho de gato na França (embora eu dissesse que eu faria isso
quando viesse morar aqui, confesso que esse foi a contra gosto). Eu queria
tomar um banho correto, mas faltou habilidade pra segurar o chuveiro com uma
mão e me ensaboar com outra. Lavar o cabelo deve ser ainda mais complicado...
Caí na rua, agora não chovia mais. Andei ‘quase a esmo’ numa
noite lyonaisse ligeiramente fria. [Por que quase a esmo? Porque já tinha
percorrido algumas daquelas ruas no Google street view. Por que ligeiramente
fria? Pois 19 graus é fria pra mim, e não para os nativos que passeavam de
bermudas, shorts e minisaias...]. As ruas estavam molhadas e cheias daquelas
folhas que vemos na bandeira do Canadá, amareladas, avisando pra mim que é
outono. Entrei no McDonalds e depois de fazer meu pedido meio que no escuro
(mas consegui o que eu queria!!!) sentei-me de costas pro balcão, de frente pra
rua. Foi engraçado ouvir aqueles jovens falando de maneira leve e descontraída,
algumas vezes com sotaques indecifráveis pra mim. Ali, naquele momento, de
frente pro meu Royale Chesse, caiu a ficha: RAISSA, VOCÊ ESTÁ NA FRANÇA!!!
Nesse momento eu chorei de alegria e felicidade.
Antes de sair perguntei onde poderia encontrar um telefone
público. Chegando ao lugar, não consegui fazer as ligações porque não comprei o
cartão telefônico no aeroporto (viu no que dá sair andando avoadamente pelo
aeroporto rumo ao táxi?) e também não consegui fazer uma ligação a cobrar pois
a operadora me pedia um número de cartão de crédito (??? – Juro que não entendi
também) e eu não desbloqueei meu cartão antes de vir pra cá. Ou seja, não
consegui ligar pra casa, e como estava sem internet, não consegui avisar que
tinha chegado e que estava viva. Só me restou enviar mensagens de conforto, via
orações, pra minha mãe, pra que ela fique tranquila até amanhã de manhã, quando
vou enfim resolver tudo.
(Escrito na noite de 11/09/2012,
entre 22:00 e 23:00, após voltar do McDonald, Lyon, França)
Baby, Que você seja muito feliz em sua estadia em Lyon. Você é uma lutadora e merece todo o sucesso.
ResponderExcluirOrgulho e Saudades!